Tradução: Leite, Letticia; Bacelar, Agatha P. 

Peliké à figure rouge<br />

Pelike de figuras vermelhas: Face B de uma pelike (jarro) ática de figuras vermelhas, 500 a.C., mostrando uma figura feminina segurando um pilão. Trata-se de uma das cinquenta filhas de Nereu, divindade marinha cuja morada é representada na face A.

Staatliche Antikensammlungen und Glyptothek Munich, Inv 8762. Fotógrafo: Renate Kühling.

Há muitos clichês em torno da Grécia antiga: ali as mulheres seriam reclusas, usariam véus ou estariam afastadas dos olhares, em um gineceu; sem exercer qualquer função cívica ou coletiva. Privadas de educação ou de cultura, elas viveriam à sombra dos homens, em uma cidade misógina. Sem subestimar a desigualdade entre homens e mulheres, esta exposição busca propor um outro olhar sobre a Grécia antiga (VII–II séc. a.C.). Ao integrar os novos achados dos trabalhos de filólogos, epigrafistas e arqueólogos, e ao recorrer a ferramentas recentes da pesquisa em história das mulheres e do gênero, a(o)s historiadora(e)s que contribuem para essa exposição irão possibilitar aos visitantes descobrir campos de ação e domínios em que as mulheres antigas agiam, gerenciavam, pensavam, criavam, amavam.

O gênero, como método de análise que postula a historicidade das categorias homens/mulheres e a dimensão social e cultural das identidades, permite que nos desvencilhemos dos clichês e percebamos as especificidades da sociedade grega: a importância primordial da distinção entre pessoas livres e escravas, uma definição do político diferente da atual e a variedade de contextos de ação individual.

Esta exposição é fruto de um programa de pesquisa do centro “Antropologia e História dos Mundos Antigos”, UMR 8210 ANHIMA (França).

Glossário:

  1. gyne, pl. gynaikes: mulher adulta, em geral livre e casada, e com filhos.
  2. aner, pl. andres: homem adulto, em geral livre. O termo assume frequentemente uma conotação positiva e designa o “bom cidadão”.
  3. anthropos, pl. anthropoi: ser humano, distinto de seres divinos e dos animais.
  4. gênero: ferramenta de análise que permite historicizar os critérios segundo os quais as sociedades diferenciam os homens e as mulheres e categorizam os indivíduos.
  5. oikos: casa, família, propriedade (incluindo bens imóveis e móveis, entre os quais os escravos).
  6. kyrios: homem livre cuja presença é necessária para garantir que uma mulher de sua família possa tomar a palavra publicamente.
  7. eros: desejo amoroso.
  8. polis, polites, politis: a polis designa a cidade (comunidade humana e territorial); o polites (pl. politai) é o cidadão e a politis (pl. politides), a cidadã. A politis e o polites não possuem os mesmos direitos (a politis é excluída das assembleias políticas e do governo da polis). Desses termos deriva, em português, a palavra “política”.

Bibliografia:

  1.  Boehringer Sandra et Sebillotte Cuchet Violaine (dir.), Hommes et femmes dans l’Antiquité. Le genre : méthode et documents, Armand Colin, [2011] 2017.
  2. Site : http://www.matilda.education/
  3. Schmitt Pantel Pauline (éd.), Histoire des femmes en Occident, I. L’Antiquité, Paris, Plon, 1991.
  4. Bielman Anne, Femmes en public dans le monde hellénistique, Paris, Sedes, 2002.
  5. Winkler John J., Désir et contraintes en Grèce ancienne, trad. S. Boehringer et N. Picard, Paris, Epel, [1990] 2005.
  6. Boehringer Sandra, L’homosexualité féminine dans l’Antiquité grecque et romaine, Paris, Les Belles Lettres, 2007.
  7. Schmitt Pantel Pauline, Aithra et Pandora. Femmes, Genre et Cité dans la Grèce antique, Paris, L’Harmattan, 2009.
  8. Foxhall Lin, Studying Gender in Classical Antiquity, Cambridge, 2013.
  9. Boehringer Sandra et Sebillotte Cuchet Violaine, “Corps, sexualité et genre dans les mondes grec et romain”, Dialogues d’histoire ancienne, 40, 2015, p. 83-108.
  10. Sebillotte Cuchet Violaine, “Ces citoyennes qui reconfigurent le politique. Trente ans de travaux sur l’Antiquité grecque”, Citoyennetés, Clio FGH 43, 2016, p. 185-215.